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Uma análise social: da Lava Jato ao cenário populacional

Basta de espetáculo e cinismo Agassiz Almeida
Armou-se no país, há mais de três anos, um dramalhão, cujo epicentro se irradia de Curitiba sob o comando de um imperador judicante que enfeixa no seu Olimpo os poderes de carcereiro, julgador e executor de penas condenatórias que as aplica com a voracidade de um inquisidor do Santo Ofício. É a versão rediviva de Torquemada, inquisidor-mor no século XVI, na Espanha, poderoso e calculista; ele lançava centenas de hereges nas fogueiras. Atualmente, aqui no Brasil, o imperador da Lava Jato lança os acusados nos holofotes televisivos num devastador linchamento moral, e pari passu a este cenário de horror em que desesperados condenados clamam para delatar, uma mídia poderosa abafa qualquer reação contrária. A morte do reitor Cancellier, em Santa Catarina foi o ápice da tortura psicológica.
Quase semanalmente, no palco deste teatrão, novas peças são encenadas com base sobretudo em delações premiadas arrancadas de atormentados condenados. O que se…

Dona Ivone voltou a ser criança

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Ivone Pereira Portela, que demonstra um rápido impulso no olhar quando é chamada de Didi, tem 84 anos, mas não se reconhece mais. O olhar silencioso mostra a sua mente vagando em algum espaço que ainda está à procura. É composta de corpo, alma e coração, mas o passado não habita mais a sua vida. Há mais ou menos 15 anos Dona Ivone convive com a doença de Alzheimer e recebe de graça o amor e o carinho da filha Clarinda, que largou a própria vida e se entregou a viver mais uma: a da mãe.
Didi é vaidosa, os olhos verdes combinam com a estampa da blusa. Seu cheiro é de gente que tem saudade de si e da vida, mas que não é infeliz por isso. De pernas cruzadas, com as mãos no joelho, Dona Ivone brinca com os chinelos vermelhos combinados com a saia. Tudo isso é obra de Clarinda que, sem deixar faltar amor, cuida da mãe como se fosse filha.
De início, Ivone se perdeu duas vezes na rua e não sabia como voltar para casa. “A primeira vez uma colega minha trabalhava perto da lagoa e percebeu qu…

Gregório Duvivier, um autor-ator

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Autor-ator, ator-autor. Não se sabe. Gregório Duvivier é uma mistura inteligente de fazer graça com as palavras. Escreve com tanta personalidade como quando atua. Seus passos em paco são palavras embaralhadas, improvisadas. As linhas do texto são cenas protagonizadas em ensaio. Gregório Duvivier é um ator, mas também humorista, roteirista e escritor. Ficou conhecido pelo seu trabalho no cinema e no teatro e, desde 2012, tornou-se o Gregório do Porta dos Fundos, canal de humor no youtube. É autor dos livros A partir de amanhã eu juro que a vida é agora, Ligue os pontos – Poemas de amor e Big Bang, Put Some Farofa e Percatempos – tudo que faço quando não sei o que fazer. Gregório Duvivier também assina uma coluna semanal na Folha de S. Paulo. No dia 22 de novembro, o escritor participou do evento Campus Festival, falando sobre a sua vida profissional, bem como declarando opiniões a respeito de determinados temas que costuma tratar em suas colunas, como a religião e a legalização da maconh…

Futebol é a gente

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"Futebol é um fato social total". Ouvia isso desde o primeiro ano de curso, na UFPB. Passei um ano e meio pra escutar a frase da boca do autor. De início, ouvia sem pretensões. Não analisava muito bem. Depois, tudo passou a ser mais importante que o jogo em si.
Sempre tenho muito receio de escrever qualquer parágrafo sobre futebol. Parece que meu facebook tá repleto de olheiros. Mas preciso aqui dizer algumas coisas. Uma delas é que em uma arquibancada minha atenção vez ou outra recai por instantes decisivos sobre a torcida. É nesse momento que começo a entender o sentido da frase lá de cima. Presto atenção em gente tanto quanto presto atenção no jogo. Mas certas coisas são capazes de desviar de vez o meu olhar.
A senhora, por exemplo, que carrega embaixo do braço uma bandeira do Brasil com escudo do Belo. Vovó, sinta-se abraçada por mim. Você representa o futebol como fato social.
A família que não poupou esforços pra ver o time jogar. Esses eu não consigo me conter. Um ca…

Saudade de domingo

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A saudade mais bonita é a mais simples. Eu a chamo de “saudade de domingo”. E por isso, ela é toda tua. É a saudade que não machuca, não dói nem desespera quem sente. É a saudade que faz estar presente o amor que se sente, o carinho que se tem, o companheirismo que não se perdeu. A saudade de hoje. É essa a saudade mais simples. E é tão bonita quanto qualquer outra. É a saudade logo após a despedida. A saudade que fica depois de tanta presença. A saudade que se mata rápido, mas que fica grudada na gente em forma de amor.
O domingo da saudade é o mais domingo de todos. A pele branca, macia, que as mãos escorrem facilmente, não se tem ao lado para acariciar. Os cabelos que permitem penetrar os dedos também se ausentaram. No domingo da saudade as pernas não se entrelaçam, o tempo passa mais devagar, o jogo é menos interessante, a leitura é a saída e, de novo, a saudade é companhia. Não é necessidade. Apenas vontade, de tudo isso que falo, de tudo isso que se faz.
Sentir saudade, nesses …

carta a um conhecido desconhecido

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O vazio me ocupou inteiramente desde o seu sumiço. Não um vazio qualquer, mas um vazio de dor no peito e lágrima nos olhos. Um vazio de verdade. Ao longo do seu sumiço, tive gratas surpresas, quis como nunca que você estivesse presente, mesmo na ausência, quis que você fosse o primeiro a saber, como sempre foi. Tenho certeza de que você ficaria muito feliz. O tempo, aquele que eu amaldiçoei ao longo de muitos meses, passou. E passou rápido. Voando. Mas levou um pouco de você. De mim. Levou um pouco de nós. Aos poucos, levou tanto que hoje já não se tem. Agora, sinto a dor te ver ir embora quando tudo era tão perto. Como dói te ver sair de fininho, com explicações vãs que não condizem com aquele exemplo de lealdade de tempos atrás. Como dói perceber que você não me deu a chance de inverter as formas, de me deixar sumir ao invés de te ver ir. Dói saber que ao longo desses caminhos tortos, você priorizou os errados circunstanciais de mim ao invés das conquistas mais bonitas de nós. Dói …

Meu cárcere é minha escrita

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Eu não queria ser dependente da escrita. Escrever por necessidade é depender de si mesmo, depende da sua coragem, da sua disposição e até da sua energia. É depender de que você não vai chorar ou, simplesmente, também não vai largar o barco. Eu não queria viver presa na minha própria imaginação.
Quando falo desse cárcere, é apenas no sentido do desabafo. Do jogar pra fora. Deixar no lixo. Falo do escrever para não implodir. Até porque, se eu dependesse da escrita para viver, não tenho dúvidas que a minha vida seria exatamente como esperei que fosse: frenética, multicor e sem monotonia. Mas falo da incapacidade de falar. De explodir com as palavras verbais, de gesticular, chorar no ombro do outro. Escrever para não explodir, isso eu não consigo. 
Não. Eu não queria estar presa na minha escrita. Não queria fazer dela o meu único escape de leveza. Embora me sinta muito bem quando coloco o último ponto final – e seria um grande egoísmo se eu não assumisse isso – não gostaria de ter que re…